A rota
Poderia partir por novos caminhos, mas, como a intenção é ser uma viajem educacional, num veleiro escola, dará preferência às rotas conhecidas, aos melhores lugares descobertos durante as três voltas ao mundo
Conheça a rotaAleixo Belov
Em Águas Da Turquia
VELEIRO ESCOLA FRATERNIDADE
Trecho Em Águas Da Turquia
Fizemos o Canal de Suez em dois dias, com uma parada rápida em Ismaília. Os egípcios estão muito viciados em tomar dinheiro dos que passam por aqui. Inventam uma inspeção, e dizem que temos que lhes dar 50 euros. Isto me deixou mal humorado e disse que eles não eram bons muçulmanos, que Allá estava vendo tudo, mas tive que pagar, mesmo assim, a propina na saída de Port Said.
Deixamos o Egito a noite, navegando entre bóias, naufrágios e um sem número de navios que saiam como nós ou se dirigiam ao Mar Vermelho. Só pela madrugada nos vimos em águas livres do Mar Mediterrâneo, e fizemos rumo para o norte, em busca de Finike, que estava a 335 milhas. Inicialmente o vento era brando, mas logo foi crescendo, ainda que um pouco contra, e após 3 dias estávamos avistando a majestosa cadeia de montanhas da Turquia. Fomo-nos aproximando e chamamos a marina pelo radio, que mandou um inflável com motor de popa para nos orientar e ajudar a passar os cabos. De repente estávamos na Turquia, que está metade na Europa e metade no Oriente. Foi muito bom mudar de águas e esquecer o que ficou para traz.
Em Finike, as autoridades tinham escritório na própria marina, e em duas horas os papeis estavam prontos. Saímos pelas ruas e a surpresa foi grande. Ruas limpas, sem um só lixo no chão, asfalto sem um só buraco, jardins e parques muito bem cuidados e cheios de flores, mercado popular cheio de frutas, verduras frescas de primeira qualidade, mel em abundancia, queijos, doces e tudo mais. Nos prédios bem pintados mora um povo amável e sorridente. Parecia sonho. Não tinha favelas nem pedintes e não parava de lembrar que na Índia dava esmolas o tempo todo. Fomos dormir maravilhados, tranqüilos no aconchego do porto e quando acordamos no dia seguinte, o topo das altas montanhas que nos cercavam estava branco e coberto de neve.
Estava intrigado. Eles tinham chegado a um tal estágio de ordem, organização e limpeza, sem que quase ninguém falasse inglês. Era até mais fácil encontrar quem falasse russo. Parece que eles resolveram seus problemas internamente, sem ajuda externa. A sorte foi que ao chegar, o Fraternidade foi observado por Andre Calcio-Gandino, um general aposentado do exercito suíço. Ele gostou do nosso barco e veio nos ver de perto. Contou que estava a sete anos navegando nestas águas, e mostrou nas cartas os bons lugares para parar, mesmo fora das marinas, que aqui eram muito caras, com preços quase proibitivos. Com Mara e Helio, anotamos tudo e ficamos mais tranqüilos. O único problema era que a Turquia tinha muito lugar bom para parar, tornando a escolha difícil.
Apesar da beleza, só ficamos dois dias em Finike, e resolvemos seguir na direção de Istambul. Pelo caminho, resolveríamos aonde parar. Tínhamos uma janela de bom tempo de quatro dias. Como a meta era chegar na Ucrânia o quanto antes, fomos avançando. Os bons lugares para parar foram ficando para trás, e de repente atravessamos os Dardanelos lutando contra uma corrente fortíssima e chegamos em Istambul, o Portal do Oriente.
Istambul é uma cidade de quinze milhões de habitantes, e mesmo andando 120 km num taxi não consegui sair da cidade. Não descobri onde ela começa nem onde termina. Já foi a capital do Império Romano do Oriente, depois conquistada e reconquistada varias vezes, traz em seu seio uma mistura de raças, de cultura, que se reflete em seu povo e na arquitetura. Mais uma vez fiquei impressionado. Nem nesta cidade grande cheia de turistas, ninguém fala inglês. Para tirar uma dúvida no Metrô foi um sufoco. Mas a comida é muito saborosa, e o pudim de arroz é inigualável. O Grande Bazar, uma feira tão grande como uma pequena cidade, onde se encontra de tudo que se pode imaginar no ocidente ou no oriente. Não há desejo que ele não possa satisfazer.
Estamos a oito dias em Istambul, e daqui a dois dias estamos partindo com destino ao Mar Negro, para Odessa, exatamente na Ucrânia. De repente, estou voltando a terra em que nasci em janeiro de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial. A guerra que mudou o meu destino e me fez emigrar com apenas sete meses de nascido para o Brasil, onde passei toda a minha vida. Agora, esta volta às origens velejando, esta repleta de preocupações. Não sei se algo vai mexer com a minha cabeça ou com meu coração. Repito, estou repleto de preocupações.
Antes de sair do Brasil, apresentei o meu projeto do Veleiro Escola na Embaixada da Ucrânia em Brasília. Eles me colocaram em contato com o segundo secretario do Ministério das Relações Exteriores em Kiev, que me ajudou na obtenção rápida do visto para todos os tripulantes e garantiu uma vaga no principal Iate Clube de Odessa. Informaram que seria recebido pela mídia, e pelo Ministério da Educação, Ciência, Juventude e Esportes da Ucrânia.
O que eu poderia pedir mais, além de bom tempo para conseguir chegar lá.