A rota
Poderia partir por novos caminhos, mas, como a intenção é ser uma viajem educacional, num veleiro escola, dará preferência às rotas conhecidas, aos melhores lugares descobertos durante as três voltas ao mundo
Conheça a rotaAleixo Belov
Da India ao Mar Vermelho
VELEIRO ESCOLA FRATERNIDADE
Trecho India, Mar Vermelho
Passei praticamente dois meses em Cochin, na Índia, esperando a formação do Rally Vasco da Gama, organizado por Lo, um experiente navegador holandês, que estava fazendo isto pela quinta vez. Vieram barcos de lugares distantes e foram se juntando, ate que no dia 18 de janeiro o rally partiu com destino a Goa, um grade centro turístico na India, cheio de hotéis na praia infestados por gente dos mais diversos lugares do planeta.
Lygia chegou e matamos a saudade. Chegamos a ficar num hotel por três dias para ter mais privacidade e só então ela foi embarcada. Visitamos praias, cachoeiras, a parte antiga da cidade fundada por portugueses. Lygia esteve comigo na Índia na segunda volta ao mundo, quando ela fez o trecho de Bali a Aden. De Goa seguimos para Jaigarh, uma pequena cidade de pescadores encravada no pé da montanha, cheia de mesquitas, onde passamos um dia antes de seguir para Mumbai, ou Bombai para os ocidentais, que é o grande centro industrial e econômico da Índia. Com Lygia e Gloria Camila, uma polonesa, já éramos 5 a bordo. Mas, de Mumbai em diante voltaríamos a ser apenas três, Aleixo, Osvaldino e Taís. Lygia estava voltando para trabalhar, depois de termos vasculhado Mumbai de todo jeito, a Belov Engenharia estava em uma fase de muitas mudanças estruturais e precisava dela junto aos demais sócios, mas foi prometendo voltar no Mar Vermelho. Eu mesmo não queria arriscar nós dois na área da pirataria. O que seria dos filhos e da empresa. Gloria Camila desembarcou pois estava com problemas de visto.
Lygia pegou o taxi a noite, depois de uma despedida prolongada, deliciosa e dolorosa ao mesmo tempo. Seu vôo era 4 da manhã, e eu fiquei mais uma vez sozinho. Pela frente eu tinha mais de 2000 milhas de águas infestadas por piratas, incertezas e tantas duvidas. Não sabia se tinha tomado a decisão certa indo pelo Mar Vermelho. Caso tivesse ido pelo Cabo da Boa Esperança, já poderia estar chegando no Brasil. Mas, a vontade de juntar o Brasil a Ucrânia me fez escolher este caminho que além de retardar a minha volta, duvidosa a esta altura, para mais dez meses.
O rally saiu de Mumbai já em forma de comboio. Cada um dos onze barcos em seu lugar, com uma distancia pré estabelecida, que aumentava um pouco a noite para evitar colisões. Lo entrava em contato com as organizações que acompanhavam ou ajudavam a combater a pirataria, telefonava do mar todo dia dando a nossa posição e colhendo dados sobre os últimos ataques. Ficou sabendo que os piratas já estavam atacando nas proximidades da Índia, o que nos obrigou a ir primeiro para o norte antes de atravessar para Oman. Assim, fomos obrigados a nos meter em águas do Paquistão, depois em águas do Irã, atravessando a entrada do Golfo Pérsico, fugindo das regiões onde os piratas tinham acabado de seqüestrar um petroleiro, para só então chegar a Sur, em Oman.
Sur não era porto de entrada, mas mesmo assim nos forneceu diesel pela metade do preço. Sem querer, fomos parar no Oriente médio.
Em pleno deserto, sem uma só arvore, uma só folha verde, cresce uma cidade sem favelas, super controlada pelo governo, com casas bem acabadas mas de arquitetura própria. Eles não produzem nada alem de petróleo e um pouco de tâmaras, andam com túnicas brancas que vão até o chão e rezam 5 vezes por dia. Passamos ai 3 dias e seguimos adiante.
Para fugir dos piratas, as vezes, ficávamos até a uma milha e meia da praia, mesmo durante a noite. Dizem que os piratas não encostam muito em terra, com medo de serem flagrados pelas patrulhas da marinha local. Como sou navegador de fundo, tive muita dificuldade de me adaptar as novas necessidades. As vezes, queria pedir a Lo para se afastar mais, mas logo veio a noticia de que seqüestraram mais um navio e um veleiro americano com 4 tripulantes que estava talvez a 150 milhas de nossa posição. Logo em seguida pegaram mais um navio, e por ultimo um veleiro dinamarquês com 4 adultos e 3 adolescentes. Imaginava o sofrimento do pai, ao ver que levou os filhos a este fim trágico. Chegou também a noticia de que os americanos pediram socorro, um navio patrulha americano capturou o barco mãe dos piratas e encostou no veleiro para resgatar os reféns, mas não deu certo. Os piratas, desesperados, mataram os quatro americanos. Enquanto tudo isto acontecia, avançávamos dia e noite, a vela e motor, sem parar, até chegar em Aden, no Yemen.
Chegar em Aden deu um alívio muito grande, mas a novela não acabou. Ainda faltam 150 milhas de águas perigosas. Águas do golfo de Aden, tendo o Yemen pelo norte e nada mais que a Somália pelo sul. O perigo continua inclusive na entrada do Mar Vermelho e só vai reduzindo daí em diante.
A chegada em Aden também não foi fácil. Os protestos que começaram na Tunísia e se espalharam por mais de 10 países árabes pedindo a saída dos presidentes, os mesmos a 30 ou 40 anos, que derrubaram o presidente do Egito, ou causaram 800 vitimas na Líbia também chegaram aqui, ainda que mais brandos. Recebemos um cartão que dava acesso ao porto, recomendando que ficássemos sempre aqui por perto, por questões de segurança.
Olhando este quadro, chegamos a conclusão de que navegamos por um mar infestado de piratas com as margens em chamas. Infelizmente, é só o que tenho a lhes dizer.