A rota
Poderia partir por novos caminhos, mas, como a intenção é ser uma viajem educacional, num veleiro escola, dará preferência às rotas conhecidas, aos melhores lugares descobertos durante as três voltas ao mundo
Conheça a rotaAleixo Belov
De Istambul a Ucrânia
VELEIRO ESCOLA FRATERNIDADE
Trecho Istambul, Ucrânia
Sai de Istambul no dia 31 de maio de 2011, depois de dois dias de aborrecimentos para conseguir os papeis do zarpe. Saímos cedo, pois gostaríamos de atravessar o estreito de Bósforo ainda com a luz do dia, um canal que separa o Ocidente do Oriente, cheio de tráfego e muita correnteza, além de passar em frente aos principais portos de Istambul, cheios de navios vindo de todos os lados. Fomos avançando, tendo que atravessar às vezes o canal de tráfego, acelerando ou parando as máquinas para deixar os navios passarem, e um pouco depois do meio dia, já estávamos em águas do Mar Negro. O vento era brando e ajudávamos no motor. Pela previsão, viriam ventos fortes dentro de quatro dias, e não quis arriscar. Na ultima hora, acelerei e garanti a chegada em Odessa sem contratempo. Falei pelo rádio com o Port Control, primeiro em inglês, passando depois para o russo e eles me guiaram, com os mínimos detalhes, até o lugar onde teria que atracar na marina do Odessa Yacht Club. O Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia, através do Sr. Anatotyi Tkach já tinha mandado reservar a minha vaga.
Sempre me preocupei muito com este último trecho, com a volta a Ucrânia, como se ele fosse um lugar proibido para mim, de onde fui arrancado pela guerra, um golpe do destino e ao chegar, reconheço que o trecho foi mais fácil do que o esperado. Fiz os papeis, que foram muitos, mas com autoridades munidas de boa vontade para ajudar, e três horas depois de chegar já estava liberado para sair andando pelas ruas.
Saímos todos juntos, como quase sempre fazemos no primeiro dia. Passamos pela estação marítima, atravessamos por uma passagem subterrânea e estávamos em frente a escadaria do Potemkin, com seus 192 degraus, famosa pelos acontecimentos históricos e pelas lutas, depois imortalizada pelo filme de Eisenstain. Logo em seguida estavam as estatuas de Richelieu e de Catarina, a Grande, que criaram a cidade. Prédios bonitos e gente bonita andando pela rua. Moças com vestido muito curto e pernas lindas, a pele muito limpa, resultado de quase 80 anos de socialismo e medicina disponível além de comida sem conservantes, antioxidantes e hormônios do crescimento que nos empurram goela abaixo. Matei a saudade de falar russo, me deliciava e me lembrava o tempo todo de minha Mãe, com quem nunca falei outra língua. Matei a saudade da cozinha ucraniana que minha Mãe fazia, da sopa de verdura, dos bolinhos de carne, dos raviólis de ricota, batata ou repolho. Estava vivendo algo como em um sonho, como se tivesse voltado de repente a minha juventude, vivendo do lado de minha Mãe. Fui numa feira e comprei livros de literatura em russo. Aliás, ainda antes de chegar aqui, já estava lendo Gorki, Dostoievski e um livro sobre a guerra em Odessa, para voltar a me acostumar com este alfabeto, do qual estive afastado nos últimos anos, mas que agora iria precisar. Quando ainda menino, meu Pai lia para mim, antes de dormir, as jóias da literatura. Nas férias, me fazia estudar gramática russa, e hoje todos me perguntam, porque falo russo tão bem.
Conhecer Odessa foi o primeiro passo. Depois fui para Alutcha, Sinferopol e Yalta, na Crimeia. Subi montanhas, andei pelos bosques com arvores centenárias e ouvi sobre as lendas desta região. Estava apenas me preparando para o mais importante, que era ir a Merefa, o lugar em que nasci, e encontrar com meus parentes. Resolvi que levaria Taís comigo, para poder filmar e fotografar estes momentos.
Eu e Taís pegamos 12 horas de trem para Carcov, Helio e Mara estavam passeando pela Crimeia enquanto Lito ficou a bordo. Depois de me hospedar em uma pousada, peguei um ônibus até Merefa. Minha prima Liudmila, para quem tinha telefonado avisando, veio me esperar no ponto do ônibus. Depois de nos abraçarmos, fomos andando devagar, observando as casas, as arvores frutíferas e ate colhendo algumas frutas pelo caminho. Taís filmava tudo. Liudmila me mostrou sua horta, os pés de cereja estavam carregados, a casa que já conhecia e depois o subterrâneo, onde armazenava mil frascos de conservas que todos faziam para o inverno. Foi em um subterrâneo destes que eu nasci durante a guerra, enquanto as balas voavam para todo lado. Depois comemos a famosa sopa de verduras com creme de leite, “vareniki”, tomamos chá e resolvi voltar cedo, para dormir, pois viajara a noite toda. No dia seguinte, depois de ver Liudmila e voltar a comer novamente, fui à casa de Yuri e Larissa onde encontrei Marina, que conheci com um ano e meio, agora já casada e com um filho. As coisas tinham mudado muito. Nos últimos 24 anos que fiquei sem vir aqui, todos os meus tios e tias tinham morrido, inclusive alguns primos. Quem era pequeno ficou grande e outros tinham nascido, como Viktoria, já com 22 anos, e que eu nem conhecia. Viktoria tinha me escrito uma carta que infelizmente nunca respondi. Poucos dos que tinham me visto ainda estavam vivos, e sentia que o tempo apagava devagarzinho as marcas dos meus passos, e que um dia elas iriam desaparecer completamente. Foi até difícil encontrar de novo a casa onde nasci. Ela foi dividida em duas e acrescida de novos quartos e uma garagem, para o filho que cresceu e passou a ter a sua própria família. Só a encontrei com a ajuda da prima Vera, que morou nela conosco durante a guerra. Era mais uma vez o tempo, fazendo o seu trabalho. Enquanto o tempo apagava as minhas pegadas por aqui, e dissolvia as minhas raízes partidas, no Brasil se dava o processo contrario. Nenhum de meus filhos fala russo, nenhum de meus filhos conhece Merefa, nenhum de meus filhos tem olhos azuis. Ao chegar no Brasil eu fui uma gota neste oceano, que brevemente vai desaparecer sem deixar rasto. Não tem a menor chance de ser diferente. É para lá que nós vamos.
Tinha passeado com Yuri de moto na ultima vez. Agora ele estava com um carro, e fomos mais uma vez percorrer os campos plantados de trigo, milho e girassol. Ele me mostrou onde costuma pescar em uma represa, sozinho, em silencio e em completa solidão. Por ultimo fui à casa de Ina, filha de Liudmila, já com três filhos, e em cada casa que passei tive que comer os banquetes que eles preparavam. Todos me sugeriam que comprasse uma casa por aqui, e viesse de vez em quando, ou ficasse com eles. Mas, por enquanto foi Yuri, Larissa e Viktoria que vieram passar uns dias comigo a bordo. Tinha visto o que queria, foi cumprida mais esta meta, e voltei para Odessa, onde já tinha dado entrevista aos jornais, e agora também para a televisão. Agora escrevo estas linhas e me preparo para o caminho de volta ao Brasil via Ilhas Gregas, Malta, Espanha e Gibraltar. O sonho é conseguir chegar. Enquanto escrevo, o vento urra lá fora. E ontem, quando deu 42 nós de vento no porto, reforcei as amarras do Fraternidade para dez cabos, enquanto ele se batia contra o cais.