A rota
Poderia partir por novos caminhos, mas, como a intenção é ser uma viajem educacional, num veleiro escola, dará preferência às rotas conhecidas, aos melhores lugares descobertos durante as três voltas ao mundo
Conheça a rotaAleixo Belov
De Marquisas ao Tahiti
VELEIRO ESCOLA FRATERNIDADE
Trecho Marquisas ao Tahiti
Saímos de Atuona, Hiva Oa no dia 20 de maio de 2010 com destino a Rangiroa, arquipélago dos Tuamotus. Saímos cedo como sempre, e depois de passar no canal que nos separava de Tauata, continuamos com a ajuda do motor ate nos afastarmos das ilhas e encontrarmos vento limpo. Atuona sempre foi um dos lugares mais queridos e onde tínhamos feito mais amigos, mas o porto era apertado, e toda hora chegava mais um barco que ia se espremendo entre os existentes, as vezes nos obrigando a mudar de lugar. Anos anteriores, éramos seis a oito veleiros, agora éramos vinte e cinco. Isto me deixava triste. Apesar de convidar em meus livros a turma para vir ao mar, percebi que com o GPS, o radio e o Iridium, tudo quanto era gente se aventurava no mar. E o que eu fazia no tempo do sextante já não tinha mais o mesmo valor. Também pouca gente jovem estava navegando. A maioria era de aposentados com dinheiro, que por não ter nada melhor para fazer, iam morar no mar, gente que já não estava plantando e sim apenas colhendo. Eu é que me preocupava em levar jovens, gente que pudesse ao conhecer o mar, amá-lo, e depois utilizar estes conhecimentos pelo resto da vida. O meu propósito parecia destoar do resto da turma.
Tinham se passado dez anos que não pisava nas Marquisas, mas, felizmente as ilhas não mudaram muito. Aumentou o numero de automóveis, mas as casas continuavam rodeadas de arvores frutíferas e de flores, mantendo a natureza bem preservada. As altas montanhas continuavam no lugar, apesar do clima estar um pouco seco, pois a estação das chuvas ainda não tinha chegado. O povo continuava muito amistoso, mas já com menos tempo, pois precisavam trabalhar um maior numero de horas, tinham bebido na fonte do consumismo, e tinham adquirido as novas necessidades da vida moderna. A gente sente que aos poucos vamos ficando todos iguais, é a inevitável globalização. Da nossa turma, mesmo os que não falavam bem o francês, conseguiram se comunicar e passavam o tempo todo rodeados de amigos, conversando, indo para festas ou passeios e ate mesmo missas. Tudo isto era muito bom, mas tinha que seguir viagem. Como tinha demorado muito por aqui, desisti de ir a Fatu Hiva, e rumamos direto para Rangiroa. Eram só 600 milhas. Mais uma vez o vento estava fraco e fizemos o percurso em cinco dias. A preocupação era a entrada no Passe, uma passagem no arrecife de corais que dava acesso ao porto no interior do atol, por onde entrava e saia a água com a inversão das marés, podendo atingir de seis a oito nós de correnteza. Tivemos que estudar muito para acertar a hora das águas paradas, mas deu tudo certo e entramos sem dificuldade. Desde o passe, a água era tão límpida que parecia brilhante e se via perfeitamente o raso e o fundo, somente pela coloração.
Rangiroa é um atol enorme, com 45 milhas de extensão, um dos maiores de toda a Tuamotus. É apenas uma barreira de corais de 50 a 500 metros de largura, lutando eternamente com o mar. A maior qualidade do coral é poder crescer e ganhar terreno debaixo de toda a arrebentação. Os pedaços de coral que o mar vai arrancando se depositam em cima da barreira não passando de um metro acima das águas, onde crescem milhões de coqueiros de saúde perfeita e que sustentam os nativos, que vivem da copra, da pesca e do turismo. O povo aqui vive bem, mas sofre de isolamento, e talvez por isso, foi fácil a nossa turma ficar muito amiga dos nativos que moravam na beira do passe. Mergulhavam com eles, faziam comida juntos, ouviam musica, dançavam e ate muitas vezes levavam colchonetes e dormiam juntos na beira do Passe. Foi uma experiência muito interessante. Viraram irmãos. Mas, com certeza sofriam da neurose das ilhas, tudo era muito lindo, mas eles nem percebiam mais esta beleza, estavam ilhados, uma verdadeira cadeia de ouro, só não tinham como sair. Passou uma semana, e novamente precisava seguir, desta vez para o Tahiti. Novamente, tive que me preocupar com a saída pelo Passe e sua grande correnteza lutando com as ondas do mar. Toda a água deste atol de 45 milhas de extensão precisava sair por dois passes e mais algumas brechas menores. Por isso, ia todo dia de manhã cedo observar o Passe para determinar a melhor hora da saída, quando a maré parava para se inverter. Os nativos que moravam a beira mar, bem no Passe, estavam todos de plantão para ver o Fraternidade passar.
Saímos sem dificuldade, contornamos a ilha pelo Norte e fizemos rumo para Papeete, Tahiti. O vento estava muito bom e o Fraternidade só faltava voar. Depois de pescar um dourado de um metro e sessenta de comprimento, que lutou muito antes de se render, chegamos ao Tahiti em 30 horas, após percorrer 220 milhas. Estávamos na capital da Polinésia Francesa.