Aleixo Belov

De Odessa a Sicília

VELEIRO  ESCOLA  FRATERNIDADE
Trecho Odessa, Sicília.

Deixei Odessa no dia 30 de junho depois de visitar todos os meus parentes ucranianos, parentes por parte de mãe, e constatar que era querido por eles, mas não deixava de ser um estrangeiro na terra em que nasci. Ninguém podia emendar as raízes partidas pela guerra em setembro de 1943, quando deixei a Ucrania com sete meses de nascido, no colo de minha Mãe.Tratava-se de algo irreversível. Tornei-me brasileiro, com cinco filhos e três netos, todos baianos. Vencida esta etapa, nada restava fazer a não ser voltar, o quanto antes, para Salvador e retomar a minha vida e o meu trabalho, que deixei com meus parceiros para poder fazer a minha quarta volta ao mundo, desta vez no Veleiro Escola Fraternidade.


Sai devagarzinho, todo pensativo, mas sabia que o mar ia lavar minha alma e cicatrizar minhas feridas. Seria uma questão de tempo.


Atravessei o Mar Negro sem esquecer do temporal que derrubou quinhentas arvores em Odessa, enquanto estava atracado no cais. Entrei pelo Bosforo, passei em frete a Istambul sem parar, atravessei os Dardanelos e cheguei na ilha de Lesvos, já na Grecia. Tinha lido vários livros sobre mitologia grega, lido livros da filosofia de Platão, sobre a bravura dos Espartanos, que preferiam morrer a se entregar e sobre os heróis da guerra de Troia. Andava pelas ruas procurando em cada rosto os traços encontrados nas estatuas antigas dos deuses gregos ou dos heróis olímpicos. Percebia que muitas coisas tinham mudado, pois por aqui passaram os romanos, depois os otomanos e muitos outros, e este sangue de filósofos, esportistas olímpicos e guerreiros foi por demais misturado, e nada mais é como antes. É um povo que vive a sua vida de forma pacata e atrai os turistas com a historia do seu passado glorioso. As terras pouco férteis, semi-áridas, dificultam a produção de alimentos. Só mesmo os pés de oliveira se dão bem neste clima e chegam a durar mil anos, além de produzir o melhor azeite.


De Lesvos, que ficou famosa por causa de uma poesia sobre lesbianismo, voltaram Mara e Helio do veleiro Maracatu, que vieram passar três meses no Fraternidade. Chegaram, o ucraniano Borys, o americano Adam e a brasileira Janaina. Três novatos que nunca tinham pisado a bordo. O Fraternidade tornou-se de repente um veleiro escola internacional.


De Lesvos, depois de tomar sol nas praias de nudismo e nadar pelado em suas águas cristalinas, segui para Aiyos Nikolaos, na ilha de Creta, para aprofundar o meu relacionamento com os gregos. Uma cidade muito bonita, arrodiada de altas montanhas, praias maravilhosas com águas transparentes e sol brilhante. Os gregos vendem o sol para os turistas vindos do clima frio.


Venho dando uns passeios, de ônibus ou as vezes alugando um carro para melhor conhecer os lugares, mas não quero demorar muito. A meta agora é retornar ao Brasil. Por isso, só passei cinco dias na lha de Creta e segui logo para a Sicilia, no sul da Itália onde cheguei no dia 29 de julho de 2011. O Mar Mediterrâneo não tem os ventos regulares, os alísios, que sopram sem parar no Oceano Pacífico. Aqui ou tem muito vento ou falta vento. Ora na vela, ora no motor, o Fraternidade vai avançando, e hoje só faltam 5100 milhas ate Salvador. Se tudo correr bem, em novembro, ou até mesmo antes, estarei de volta para matar as saudades. Este é o sonho.