A rota
Poderia partir por novos caminhos, mas, como a intenção é ser uma viajem educacional, num veleiro escola, dará preferência às rotas conhecidas, aos melhores lugares descobertos durante as três voltas ao mundo
Conheça a rotaAleixo Belov
Salvador - Natal
VELEIRO ESCOLA FRATERNIDADE
Trecho Salvador-Natal
A saída de Salvador para dar uma volta ao mundo nunca foi fácil. Lembro- me perfeitamente como foi das outras vezes. Abandonar tudo e sair sem saber quando volta ou até se volta, já aos 67 anos, se lançar no mar a bordo de um veleiro já seria uma grande responsabilidade. Levando parte da família e uma turma de pessoas selecionadas por currículo, ou com um pouco de conversa, a responsabilidade se torna ainda maior. Além de responsável por mim e pelo barco, desta vez, estava sendo responsável por todos.
A saída teve duas etapas. Primeiro, na Bahia Marina onde o Fraternidade ficava normalmente, alguns amigos mais chegados e as diversas televisões resolveram fazer as ultimas entrevistas e filmar os preparativos finais antes da saída para o Segundo Distrito Naval, onde o Almirante abriu as portas para o publico ver o Fraternidade, e onde toda a tripulação saltou no cais para a despedida e o abraço final. A banda de musica, toda de branco, tocava o Cisne Branco, enquanto dava os abraços, tirava fotos, e me despedia. Depois, desatracamos e saímos bem devagar. Não havia pressa, pois a viagem era realmente longa e queria curtir, mais uma vez, a vista da nossa querida Cidade do Salvador.
Algumas embarcações ainda nos acompanharam, mas logo em seguida ficamos a sós. Tinha acabado a despedida e estava começando a nova realidade. As terras foram ficando mais distantes enquanto procurava me afastar ainda mais, para sair da rota dos navios, antes da noite chegar. Umas nuvens se formaram no horizonte e não demorou para se transformarem em aguaceiro acompanhado de trovoadas. Relampejava pra valer, enquanto todos no convés se banhavam, tirando a poluição e a poeira da cidade, enfim, lavando a alma. Todos bebiam a água energizada pelos raios que escorria do toldo por cima da roda do leme ou recolhiam em camburões para posterior consumo. Era uma água sagrada que vinha dos céus.
Anoiteceu e estabelecemos os quartos, sempre um mais experiente com um novato, enquanto eu ajudava em todos os quartos. Como éramos 12, alguns turnos ficaram com 3 pessoas. Os navios foram aparecendo e a gente saindo de perto, esperando eles passarem. Quando amanheceu, as cores da aurora iluminaram o Fraternidade, como as do crepúsculo já tinham feito no dia anterior, apesar das nuvens carregadas de chuva. O dia nasceu bonito e o barco seguiu seu rumo, apesar do vento brando, bom para os novatos e os enjoadinhos, que continuavam deitados esperando o enjôo passar.
Quando menos se esperava, uma cavala de uns 5 kilos mordeu a linha de arrasto, e a alegria foi geral. Parte foi consumida ainda crua e o resto grelhada. O sabor de um peixe vivo é inigualável.
Tínhamos ganho um buque de rosas brancas, e resolvemos fazer uma oferenda. Lara se ajoelhou na plataforma de popa e foi colocando rosa por rosa sobre a superfície das águas que fugiam da popa a medida que o barco avançava. Quando terminou, todos bateram palmas. Foi lindo.
O vento ficou mais brando e liguei o motor, para carregar as baterias e ajudar as velas. Relampejava sem parar e a trovoada estava formada. Só de noite o vento voltou e embalou o barco. Desliguei a máquina e o Fraternidade seguiu. A lua nova, magrinha, nos fazia companhia.
Passamos por Recife, depois Joao Pessoa, e quando estávamos nos aproximando de Natal o vento melhorou tanto que arriei a mesena, risei a grande e enrolei parcialmente a genoa para não chegar ainda a noite. Quatro e meia da madrugada botei todo pano em cima e o Fraternidade seguiu. Foram aparecendo os primeiros prédios da Ponta Negra, depois os de Natal. Apareceu a ponte pencil sobre o Rio Potengi e as bóias da entrada do canal de acesso. Fizemos as bóias, passamos por baixo da ponte, e chegamos no Iate clube de Natal para lançar a ancora.
Estávamos em Natal. Tínhamos concluído o primeiro trecho da nossa viagem. Mas, para dar a quarta volta ao mundo faltava muito. Faltava tanto que era até quase impossível se imaginar.
Descansei 2 dias e estou escrevendo esta reportagem. Ficarei mais 2 dias em Natal e vou largar direto para o Caribe. O plano é ir sem escala, algo em torno de duas semanas. Talvez para Grenada.
Natal, 23 de janeiro de 2010.