A rota
Poderia partir por novos caminhos, mas, como a intenção é ser uma viajem educacional, num veleiro escola, dará preferência às rotas conhecidas, aos melhores lugares descobertos durante as três voltas ao mundo
Conheça a rotaAleixo Belov
Do Sudão a Suez
VELEIRO ESCOLA FRATERNIDADE
Trecho Sudão, Suez
Finalmente, depois de tanto sonhar com este dia, parece que ele chegou. O dia em que estaria livre dos Piratas da Somália desde a Índia, do milhão de arrecifes pela beirada e do interminável numero de navios que cruzam o Mar Vermelho pelo centro ou por onde têm águas profundas, de tantas plataformas de petróleo em nosso caminho, algumas abandonadas e até mesmo apagadas e da falta ou do excesso de vento desta região meio conturbada. Quando atravessei o Mar Vermelho pela primeira vez, há 24 anos e em solitário, jurei não voltar aqui nunca mais. Acabo de chegar em Suez e daqui a dois dias vou atravessar o Canal de Suez, com um piloto a bordo e vou desaguar de repente no Mar Mediterrâneo, nada mais que na Europa. Então vou subir, navegando entre a Turquia e a Grécia, passando por onde aconteceu a heróica Guerra de Troia, entrar pelo Mar de Mármara para chegar em Istambul, o Portal do Oriente, e finalmente seguir pelo Mar Negro até Odessa, na Ucrânia, para chegar velejando ao lugar onde nasci. Se conseguir, parece que isto fecharia a mandala da minha vida, daria um acabamento final nesta idéia que me persegue há tanto tempo. Em seguida, voltaria ao Brasil, e o que acontecesse daí em diante seria lucro. A missão estaria cumprida.
Toda esta dificuldade, todo este stress desde a Índia até Suez, mudou de certa forma o foco da minha vida, mas não me queixo. Lá no fundo da minha alma só eu sei, que era exatamente isto mesmo que eu estava procurando. Eu me meto nestes apertados, procurando uma razão para viver, senão viver fica sem sentido. Caso contrário, teria seguido de Bali pelo Índico Sul para Cape Town, como já fiz tantas vezes, e hoje já estaria de volta ao Brasil, já estaria em casa.
Foi difícil, mas foi bonito. Swakin, com seus nativos vestido de batinas brancas, suas mulheres com vestidos coloridos cobrindo às vezes até mesmo o rosto, a água transportada e distribuída em carroças puxadas por jumento, um povo vivendo no deserto, criando ovelhas, cabras e camelos, alguns vivendo em tendas no meio do nada, mostrava ser possível algo que minha cabeça não entende, que nenhum livro de economia explica, que parece ser totalmente impossível, mas que existe e é a pura realidade. O povo do Sudão é tão afetivo, que se derrete se você os abraça, sorriem, uns não se deixam fotografar, enquanto outros lhe adulam para que fotografe. Um chá forte e muito gostoso, um café moído em pilão na hora, é ainda melhor, o café arábico. Como eu gostei deles, que ainda hoje sinto sua falta. A África do lado do Mar Vermelho, é completamente diferente da África do lado do Atlântico. Nem parece o mesmo continente.
Do Sudão segui para o Egito, já com mais 3 novos tripulantes. Mara e Hélio que são comandantes do veleiro MaraCatu e vieram conhecer o Mar Vermelho e Hermann, mecânico, que é um novo aluno. Fiquei em Port Galib e Hurghada, cidades turísticas com mais de mil barcos que levam turistas de todo o mundo para ver os corais e peixes em suas águas cristalinas, vãs que os levam para Luxor para ver os templos dos faraós, para ver o deserto, os beduínos em suas tendas, para ver o Rio Nilo e até mesmo nos levaram para navegar um pouco em suas águas em barco regional e a vela. Tem gente que passa até uma semana perambulando pelo Nilo num barco destes, e volta contando maravilhas.
Agora que estou em Suez, vou ao Cairo amanhã, vou ver mais uma vez as pirâmides, os museus e volto para atravessar o canal. Vamos em frente, enquanto o tempo passa. Fluindo como o Nilo, vou desaguar no Mediterrâneo.