Aleixo Belov

Do Tahiti à Noumea

VELEIRO  ESCOLA  FRATERNIDADE
Trecho Marquisas ao Tahiti
 

Tahiti sempre foi a grande capital da Polinésia Francesa, e continua sendo. O que mais mudou, desde a última vez, foi o número de carros já com alguns engarrafamentos, o porto que foi ampliado, marinas novas e o Projeto Orla que acabou com o lugar onde fiquei atracado na primeira volta, transformando-o em um grande centro de lazer de primeiro mundo. Aqui se passeia, se come, se dança e se ouve música. Fica-se deitado na grama impecável olhando quem passa ou esperando o tempo passar. Na frente do parque temos o mar, e atrás, por detrás dos prédios, as altas montanhas com seus picos perdidos nas nuvens. O povo maori é muito bonito, seu rosto, seu olhar e seus lábios carnudos nos deixam maravilhados, apesar das mulheres ficarem acima do peso um pouco cedo. A nova vida civilizada não os obriga a gastar as energias que antes despediam para conseguir os alimentos. Aquela vida maravilhosa no meio da natureza por entre as flores e cachoeiras foi aos poucos sendo substituída pela cadeira do escritório ou o balcão da loja. Estas coisas lindas continuam por lá, só que não se tem mais tempo para curti-las.

Ao chegar foi difícil, como sempre, até se encontrar um ótimo lugar na marina, a dez metros da avenida beira mar, de onde sentados a bordo, observávamos quem passava, trocávamos sorrisos ou adeusinhos. A turma mais nova foi quem aproveitou melhor.

Lara estava voltando para Salvador para trabalhar, mas Alexey continuou um pouco mais pois tinha trancado a matrícula na faculdade e só voltaria a partir do próximo porto que seria Rarotonga.

Nosso contrato com Paulo Alcântara para fazer o filme terminou no Tahiti, e provavelmente vamos contratar um outro cineasta lá adiante. Vamos ver quem candidata para ocupar a vaga existente.

Abastecemos, nos despedimos dos amigos e mandamos as reportagens atrasadas para Salvador, pois nas pequenas ilhas que passamos a internet era lenta e não conseguia mandar fotos. Agora com tudo em dia, desatracamos no dia 8 de junho com destino a Rarotonga, uma ilha da Nova Zelândia, que fica a 620 milhas, da qual tinha belas recordações.

Saímos no motor. Demorou até que as altas montanhas parassem de barrar o vento, e só ai desliguei a máquina e segui com as velas. Mais uma vez o vento estava fraco, íamos nos arrastando devagar, até que no dia 14 surgiram no horizonte as verdes montanhas de Rarotonga. Contornamos a ilha e depois de passar pela barreira de corais lançamos a ancora, e indo de ré atracamos no cais, ao lado de outros 10 veleiros.

A ilha é muito turística, pois enquanto na Nova Zelândia faz frio, as praias ensolaradas de Rarotonga acolhem os seus filhos com carinho. Nada de burocracia, muitos hotéis com tudo fácil, internet, carros e motos alugados por bom preço, algumas boates, bares com dança de nativos sorridentes e a ilha toda verde. Quando o vento mudou, porém, o porto ficou em dificuldades e quase todo mundo teve que lançar as ancoras de novo, pois uns barcos caiam por cima dos outros e não foi nada fácil. Terminei lançando 90m de corrente para garantir, isto depois da popa do barco se chocar contra o cais e amassar dois tubos da borda. Fazer o que.

No último dia Alexey se despediu da turma e fui levá-lo no aeroporto. Ele tinha feito pela internet a pré-matrícula e estava voltando para estudar engenharia no quinto semestre. Disse que retornaria nas férias de dezembro. Assim que voltei a bordo, desatraquei e fui em frente. O vento estava duro, e um dos novatos vomitava sem parar, alias, nem conseguia ficar em pé. O barco, porém não tomava conhecimento e seguia em frente rasgando as águas e deixando atrás de si uma grande esteira de espumas brancas.

Nosso destino seria Noumea, Nova Caledônia, que estava a 2050 milhas. Estávamos em pleno inverno. O vento estava frio e mudava de direção o tempo todo. Ora estávamos orçando, ora com vento a favor, mas a cada 4 dias tudo voltava a ser como antes e assim sem parar. Depois faltava vento, e como estávamos muito ao Sul, sentíamos falta daqueles velhos amigos, os ventos alísios, que ficam na zona tropical. Este trecho durou 16 dias, e chegamos no porto quase sem vento, com mar calmo e com auxilio do motor, um dia antes da previsão anunciar ventos fortes e bem na cara, vindos de Oeste.

Chegamos no final da tarde do dia 8 de julho, depois de atravessar a grande barreira de corais e navegar por 15 milhas em águas interiores. Pelo rádio não conseguimos contato e ficamos ancorados até o amanhecer, para só então tentar uma vaga na marina. Fundear foi difícil, pois o porto era todo marcado com áreas restritas e estava superlotado de barcos. Encaixei-me num cantinho, mas quando o vento Oeste entrou de manhã, foi um tal de remanejar, que terminei tendo que lançar o ferro quatro vezes nas primeiras 24 horas. O Fraternidade com seus 21,50m de  comprimento, lançando 60 m de corrente, quando girava, era o terror dos pequenos barquinhos. Só quando consegui uma vaga apertada na marina, que com um pouco de sorte consegui entrar sem arranhar ninguém, descontraí para descansar. Tem gente que pensa que navegar é só alegria. Aliás, isto só serve mesmo para quem gosta. Pensando bem, só faltam 2000 milhas para a Austrália, onde emplacaríamos meia volta ao mundo.

Em Noumea encontramos mais de 10 brasileiras casadas com franceses, que nos levaram para passear e organizamos uma bela feijoada a bordo, com forro e tudo.